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Balanço: a passagem de Rogério Ceni pelo Cruzeiro

Qual o legado que a passagem do ex-goleiro como técnico da Raposa deixou ao clube

Cruzeiro e Rogério Ceni viveram um relação relâmpago. Apesar de intenso, o casamento entre clube e treinador durou menos de dois meses e somente oito jogos. E nenhum dos membros dessa relação perdeu tempo. O Cruzeiro logo se acertou com o técnico veterano, Abel Braga. Rogério, por sua vez, voltou para seu ex-clube, o Fortaleza. E esse período tão curto de trabalho foi positivo ou negativo? Ceni foi injustiçado? O ex-goleiro deixou um bom legado para a Raposa?

Bem, analisemos agora a curta passagem de Rogério Ceni pelo Cruzeiro.

Rogério Ceni chegou ao Cruzeiro, no dia 11 de agosto, para substituir o vitorioso treinador Mano Menezes. Desgastado com seu último técnico, que ficou três anos no cargo, e com o estilo de jogo reativo que já não produzia mais resultados, o time celeste parecia necessitar de uma nova ideia, de uma nova filosofia. E Ceni, técnico em ascensão, com grandiosa história no futebol e demonstrando ideias de jogo modernas, parecia o nome certo para assumir o lugar de Mano.

Estilo de jogo

Logo que chegou ao clube, Rogério Ceni indicou que haveriam muitas mudanças em relação ao trabalho anterior, feito por Mano Menezes. O novo técnico afirmou que enxergava alguns jogadores em posições diferentes daquelas em que Mano costumava os utilizar. Para Rogério, Robinho era segundo volante, Ariel primeiro volante e Dodô poderia jogar no meio. Pedro Rocha seguiria de “falso 9”.

Outra mudança feita por Rogério foi na forma de colocar a equipe em campo. Entusiasta do futebol ofensivo, o treinador queria o controle do jogo e muita velocidade. Sendo assim, passou a utilizar Robinho de segundo homem de meio e abusar dos pontas rápidos.

Também houveram mudanças na saída de bola. Os chutões foram extintos. O negócio com ele era bola no pé.

Razoável no ataque, horrível na defesa

Se no papel as mudanças se mostravam animadoras, na prática a coisa não era bem assim. Primeiramente, o esquema de jogo se mostrou extremamente vulnerável defensivamente. Claramente, aquela forma de jogo era pensada para quando se tinha a bola e não na situação contrária. Ou seja, com a bola nos pés, a criação de oportunidades melhorou bastante em relação ao período anterior, com Mano Menezes no comando. Mas, sem a bola, o Cruzeiro virava uma peneira. As duas goleadas sofridas para Internacional e Grêmio mostraram isso.

A saída de bola, a la tiki-taka, também ficou só no papel. Toda partida era um susto diferente. Os adversários subiam as linhas de marcação e o Cruzeiro ficava acuado. Até que, contra o Flamengo, no Mineirão, aconteceu o inevitável. Um erro na saída de jogo acabou culminando no gol rubro-negro. Uma tragédia que já vinha sendo anunciada, mas que nada foi feito para evitá-la.

Balanço: a passagem de Rogério Ceni pelo Cruzeiro
Sozinho no setor de marcação do meio-campo, Henrique foi um dos que mais sofreu com a chega de Rogério Ceni – Crédito da foto: Bruno Haddad/Cruzeiro

Resultados

E se a forma de jogo não deu certo, isso se refletiu nos resultados. A estreia de Rogério Ceni foi animadora. Um 2 a 0 dominante sobre o Santos, que na ocasião liderava o Campeonato Brasileiro. Mas, um fator influenciou diretamente no resultado da partida e acabou maquiando os problemas que viriam a aparecer futuramente. Logo no primeiro lance da partida, o zagueiro Gustavo Henrique, do Santos, foi expulso. Jorge Sampaoli tentou ser ousado e não recompôs sua defesa, que já havia começado o jogo sem nenhum lateral direito de ofício. Bom, o Cruzeiro deitou e rolou. Mas parou por aí.

Futebol em decadência

Os próximos jogos foram um suplício. Percebendo a fragilidade do esquema de Rogério, os outros treinadores conseguiram facilmente neutralizar o Cruzeiro. Após o jogo contra o Santos, o time empatou com um frágil CSA, ganhou do Vasco, em casa, com um gol do jovem Maurício que havia entrado no segundo tempo. Lembrando que Fábio defendeu um pênalti quando o placar marcava 0 a 0 e que o cruz-maltino jogou melhor.

E em seguida, o pesadelo. O time foi goleado duas vezes. Perdeu para o Internacional por 3 a 0, na semifinal da Copa do Brasil, e para o Grêmio, por 4 a 1, em casa, pelo Brasileiro. Tudo isso com Robinho de volante, fragilizando o meio de campo, que era tomado pelos jogadores adversários.

Após as goleadas, Ceni percebeu que não dava mais para insistir naquele esquema. O garoto Éderson então entrou em cena. Com mais um volante de ofício no time, as derrotas continuaram, mas dessa vez de forma mais digna. Perdeu para o Palmeiras de Mano Menezes por 1 a 0, fora, e para o Flamengo, por 2 a 1, em casa.

No último jogo de Rogério Ceni pelo Cruzeiro, um empate que saiu barato contra o Ceará. Após um bom primeiro tempo, Ceni mexeu mal e o time passou a ser dominado pelo Vozão. Fábio e a trave garantiram que o Cruzeiro voltasse para casa com um pontinho na mala.

Na passagem de Rogério Ceni pelo Cruzeiro foram oito jogos, com duas vitórias, dois empates e quatro derrotas. Um aproveitamento de 33,3%. Foram seis gols marcados e onze sofridos.

Balanço: a passagem de Rogério Ceni pelo Cruzeiro
A sonora goleada sofrida para o Grêmio, por 4 a 1, escancarou os problemas táticos e técnicos do Cruzeiro – Crédito da foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro

Substituições

Outro problema de Rogério Ceni era nas substituições. O treinador acreditava que velocidade era a chave de tudo no jogo e frequentemente vulnerabilizava seu time mexendo errado, para fazer alterações ofensivas. A leitura de jogo de Ceni era precária e isso frequentemente culminava em mudanças erradas. A queda de produção constante do Cruzeiro na etapa final dos jogos tem sim a ver com a questão física, mas também havia a parcela de responsabilidade de Rogério, que criava mais problemas no decorrer das partidas ao inés de saná-los.

A falta de coerência nas mexidas também era notável. Maurício salvou o Cruzeiro, contra o Vasco e foi esquecido. Na goleada para o Grêmio, Rogério sacou David antes dos 30 minutos do primeiro tempo, quando já estava 2 a 0 para os gaúchos, e colocou Pedro Rocha. Ou seja, ele tirou um jogador ofensivo que, sim, fazia um mau jogo até então, para colocar outro da mesma função e característica. Além de queimar uma alteração mudando seis por meia dúzia e ainda queimar o atleta, já contestado pela torcida, Ceni abriu mão de consertar o que realmente tinha influência no 2 a 0 sofrido: o meio e a defesa.

Gestão

Talvez aquilo que provocou a derrocada de Rogério Ceni no Cruzeiro. Um treinador não tem como função apenas escalar e dar treinamentos. Gestão, boa comunicação, envolvimento com outros departamentos, estudos estatísticos e comportamentais, tudo faz parte do trabalho de um técnico. Mas, da mesma forma que Ceni parecia enxergar um jogo com o Cruzeiro apenas com a bola nos pés, ele também parecia ver sua função de técnico apenas dentro das quatro linhas.

Que Rogério Ceni é um profissional de temperamento difícil, todos sabem, desde seus tempos de jogador. Inclusive, ironicamente, Ceni já causou a demissão de treinadores, quando era goleiro do São Paulo. E um de seus principais defeitos é a arrogância. Como atleta, frequentemente responsabilizava seus companheiros por erros nas partidas. Como treinador, no seu curto e desastroso período no Tricolor do Morumbi, idem. No Fortaleza não cheguei a acompanhar.

Téc
Rogério Ceni demonstrou sérios problemas de gestão de elenco – Crédito da foto: Thiago Parmalat/Lightpress/Cruzeiro

No Cruzeiro, Ceni se mostrou arrogante logo ao chegar, quando afirmou que alguns jogadores, em sua visão, eram de posições diferentes daquelas que jogavam. Desconsiderando todo o longo trabalho de Mano Menezes, que conhecia cada atleta muito bem e onde estes renderiam melhor.

Em seguida, começaram os atritos com os jogadores. Um após o outro. As coletivas do treinador eram péssimas, pois este nunca errava. Apenas os atletas. E, com isso, Rogério Ceni passou a perder o apoio do grupo. Até que, chegou o estopim.

O estopim

Segundo informações, a relação de Rogério Ceni com o elenco estrelado vinha se deteriorando a muito tempo. Mas, o apoio de um certo grupo, formado pelos jogadores com mais tempo de casa do elenco (Fábio, Léo, Henrique, por exemplo) mantinha o grupo nos eixos. Só que, após o gol sofrido na derrota para o Flamengo, no último fim de semana, o apoio desses jogadores se perdeu.

Rogério responsabilizou o goleiro Fábio pelo erro na saída de bola, que acabou ocasionando o gol flamenguista, mesmo com esses erros tendo sido frequentes durante toda a passagem de Ceni. Mesmo com torcida e imprensa já tendo percebido que essa saída de jogo logo daria errado. Mas, ao invés de assumir seus erros, como treinador, Ceni resolver culpar o camisa 1 do time, que havia salvado a pele do técnico diversas vezes, como contra o Vasco. No jogo seguinte as críticas, o último de Rogério a frente do Cruzeiro, Fábio deu chutão em todas as bolas que vinham em sua direção. O jogador havia se rebelado.

Fábio
Ídolo celeste, Fábio também teve problemas com Rogério Ceni – Crédito da foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro

A queda

E por fim, o capítulo final. Ao final do jogo contra o Ceará, Dedé chamou Rogério para conversar, junto ao time, no vestiário. O camisa 26 celeste afirmou, educadamente, segundo fontes, que o Cruzeiro não poderia abrir mão de um jogador como Thiago Neves, que havia passado o jogo no banco de reservas, num momento como esse. Bom, apesar de “TN10” estar fazendo péssima temporada, a declaração do zagueiro não era absurda.

Entre Thiago e o limitadíssimo e inexperiente Ezequiel, o meia veterano poderia, num lance, decidir um jogo. Ou talvez, que seja, bater um pênalti. O novato não. Não digo que concordo com Dedé. Thiago Neves não tem merecido entrar em campo. Mas a opinião do zagueiro tinha embasamento e merecia ser, no mínimo ouvida e discutida. Portanto, uma bola fora de Ceni que deixou sua situação insustentável.

Não para Ceni. O treinador virou as costas e deixou Dedé falando sozinho, saiu do estádio e foi embora. Os jogadores saíram 20 minutos depois. Agora imagine você, num trabalho de escola, vê algo que não acha que está certo em algo que seu grupo está fazendo. Educadamente, pergunta à uma das pessoas se pode ter a palavra e mostra o que acha estar errado. Essa pessoa te olha e te dá as costas. Sai da sala. Não há como defender tal atitude. E Dedé, para muitos, ainda saiu como vilão.

O jogador, inclusive, fez um pronunciamento emocionado sobre o caso. Veja:

Balanço final

O passagem de Ceni no Cruzeiro foi desastrosa. Não consigo pensar em algo que ele deixou de bom no time, além da entrada do excelente Éderson e do aumento do número de finalizações, de quase zero por jogo, na era Mano, para uma média comum para qualquer time brasileiro.

Rogério Ceni não conseguiu fazer praticamente nada do que se propôs. Não conseguiu bons resultados. Não conseguiu implantar um bom futebol. Talvez tenha mudado apenas a forma de jogo do time. Mas, como esta continuou precária, foram apenas dois lados diferentes duma mesma moeda. Não há, portanto, justificativas par defender Ceni e sua passagem. É claro, os jogadores tem grande parcela de culpa e atrapalharam e muito o treinador. A situação do clube e da sua diretoria é um agravante. Rogério pegou um time deixado por Mano aos frangalhos. Mas, como venho dizendo. Não podemos confundir o menos culpado com não ter culpa.

Rogério Ceni é sim, o menos culpado da situação do Cruzeiro. Mas, o ex-goleiro, tem sim sua parcela de culpa.

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