Início Opinião Nem atacante, nem meia: Cruzeiro precisa contratar um presidente

Nem atacante, nem meia: Cruzeiro precisa contratar um presidente

Depois da renúncia de Wagner Pires de Sá, o Cruzeiro foi gerido por um conselho constituído por empresários cruzeirenses. Administrativamente, buscou-se organizar a bagunça e toda a sujeira que Itair Machado e companhia haviam deixado. A missão era colocar ordem no caos que havia sido instaurado no Clube. Dívidas, salários atrasados, pendências jurídicas. Tudo isso coube ao Conselho Gestor resolver. Na medida do possível, eles cuidaram dessa parte, mas deixaram o futebol de lado.

A ausência de planejamento para a temporada de 2020 foi um erro que vai custar caro ao futuro celeste. Retornar à primeira divisão tinha de ser prioridade, porque apenas o fato de estar na Série A significaria um alívio nas contas e nas receitas. Ainda mais nesse tempo de pandemia, que retirou do estádio o torcedor (e, por consequência, toda a receita de bilheteria). Punido com perda de mandos de campo, o Cruzeiro ainda terá de cumprir essa punição quando o retorno da torcida aos estádios for permitido. Ou seja: ainda temos esse preço a pagar. Faltarão receitas de bilheterias por muito tempo ainda.

O que mais incomodava durante a administração do Conselho Gestor era a falta de uma figura central que pudesse responder pelo Cruzeiro. Como havia várias pessoas falando pelo Clube, tudo ficava muito confuso, pois nem sempre essas pessoas falavam a mesma língua. Aos poucos, o conselho foi se diluindo e enfraquecendo e a necessidade da eleição de um presidente foi ganhando força a cada dia mais. E, assim, nesse contexto ainda conturbado, o Cruzeiro elegeu Sérgio Santos Rodrigues para um mandato-tampão. Sérgio, lembremos, concorreu com Wagner Pires de Sá nas eleições de outubro de 2017 e perdeu.

O novo presidente eleito chegou com discurso moralizador e empolgou alguns desavisados com a imagem de um “novo Cruzeiro”, com gestão moderna e profissional. Precisando de apoio da torcida e dos conselheiros, Sérgio Santos Rodrigues (doravante SSR) promoveu a si mesmo com suas “Lives do Presidente”, por onde ele anunciava os novos patrocinadores, seus planos para modernizar a instituição e toda sua fúria contra aqueles antigos dirigentes que colocaram o Cruzeiro no fundo do poço. Você deve se lembrar que, pela primeira vez, o Clube transmitiu ao vivo uma reunião do Conselho Deliberativo para aprovar a alienação de um imóvel para venda. SSR fez uma apresentação empolgante, utilizando todos os recursos disponíveis para seduzir a plateia. No comando do Conselho, Paulo Pedrosa – aquele que afirmou sem o menor pudor que não havia irregularidades na gestão de Wagner Pires – iniciou a votação e bradou, com três segundos, que estava aprovada por aclamação a alienação do imóvel. Não houve sequer tempo para que manifestações contrárias aparecessem. Foi um golpe, na verdade, mas como foi “para o bem do Cruzeiro”, muita gente relevou. Não houve democracia verdadeira naquele episódio.

Entre lives e boas notícias, SSR foi vendo o time enfrentar dificuldades na Série B. Trocas no comando técnico foram feitas. Uma, duas, três vezes. Logo ele, que criticava essas trocas constantes, se viu fazendo o mesmo. Mais do mesmo. E enquanto a Série B corria, o elenco ia se formando. Contratações, dispensas, afastamentos. Resultados e desempenho em campo ruins como era de se esperar. O problema real nunca esteve à beira do campo, mas fora dele. As boas notícias foram sumindo. As lives ficaram cada vez menos constantes. Problemas financeiros, problemas na justiça, punições, polêmicas.

Apesar das dificuldades, veio a reeleição. SSR será presidente do Cruzeiro até 2023. O que é uma pena, porque ele desapareceu. Diante da permanência confirmada na Série B, do fracasso do departamento de futebol, dos mais de três meses de salários atrasados, de polêmicas e mais polêmicas nos bastidores, da aliança política com aqueles mesmos que ajudaram Wagner Pires e Itair Machado a destruir o Cruzeiro e da briga com a torcida, o presidente sumiu. O cargo está vazio. Não há comando, não há mais aquela figura que representa o Clube.

Também pudera: como explicar para o torcedor que o “Novo Cruzeiro” não tem nada de moderno, nem transparente, nem profissional? Que moral tem SSR para falar qualquer coisa se ele mesmo se cercou de pessoas como Pedrosa e Nagib e permitiu que um sujeito arcaico como Gilvan de Pinho Tavares fizesse parte de um grupo responsável pela formulação de um estatuto moderno (proposta essa que foi apresentada e causou espanto e revolta, pois ampliava poderes e mantinha a velha oligarquia entre os conselheiros)? Que moral ele tem agora?

Para a temporada 2021, o Cruzeiro precisa contratar, com urgência, um presidente. De preferência que entenda de futebol e que não tenha o ego maior que tudo. Antes de pensar em reformulação do elenco e da permanência ou não do treinador, o Cruzeiro precisa de um presidente de verdade. O Cruzeiro precisa de um presidente que não seja um vendedor de ilusões, mas que faça o que tenha que ser feito. Sabemos que a realidade do Clube é muito complexa e difícil e que não existem soluções mágicas. Todavia, creio que fazer o “arroz com feijão” é melhor que tentar inventar a roda. E fazer o arroz com feijão significa montar um departamento de futebol que entenda de futebol (Fora Benecy, Devid e Mazzuco!), trazer gente profissional que conhece a casa e se identifica com o Clube (Alex, Tinga, Klauss são alguns nomes). Parar com as picuinhas e unir os grandes cruzeirenses para ajudar a tirar o Cruzeiro dessa (Bruno Vicintin, Pedrinho e quem mais estiver disposto). Afastar dos cargos aquelas pessoas que participaram da gestão de Wagner e que assinaram lista pró-Itair Machado. Chamar a torcida para jogar junto neste ano de Centenário e ser muito transparente com todas as coisas. Tenho certeza de que, com essas atitudes, a torcida vai comprar a causa e voltar a ser patrocinadora do Clube. O programa de sócio-torcedor mudou de nome e de ideias várias vezes, mas acabou sendo mortificado entre platinas, ouros e diamantes.

O Cruzeiro precisa de um presidente. Pode até ser o próprio SSR, desde que faça o que é preciso fazer e pare de vender ilusões por aí como se a gente fosse bobo. Só assim vejo esperança, vejo aquela luz no fim do túnel. Todavia, se continuar do jeito que está, o Cruzeiro vai acabar. Nem projeto de clube-empresa poderá nos salvar. Afinal, quem é que vai assumir 1 bilhão em dívidas sem expectativa de retorno financeiro a longo prazo? Me apresentem esse empresário que eu mesmo beijarei seus pés.

Precisa-se de presidente!

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